A integração osteopática no tratamento intestinal – Caso Clínico

Escrito por: Prof° Ft. Matheus Astorga Martins
Docente do IDOT

No dia a dia dos osteopatas pessoas com diversas doenças, debilidades e lesões aparecem em nos consultórios. Não é incomum chegar até nós pacientes que simplesmente não tiveram diagnostico médico fechado. Este caso clínico é sobre um desses pacientes.

Este paciente foi atendido em conjunto pelo também osteopata Alan Borges, que iniciou seu tratamento e ao constatar que de alguma forma eu poderia ajudar me encaminhou o paciente.

O paciente chegou a nossa clínica em virtude de fortes dores abdominais, descritas por ele como cólicas. As dores se iniciaram em abril de 2013 e persistia por todo o tempo, agravando-se nos momentos onde o paciente tentava evacuar e após alimentar-se. Segundo o paciente a dor era tanta que ele preferia em alguns momentos simplesmente não se alimentar. Este quadro o levou a perder 30Kg em cerca de um ano de investigação sobre as dores que o mesmo sentia.

Os exames que o mesmo havia feito em busca de diagnóstico foram inúmeros, tais como tomografia, punção medular, diversos exames de sangue, colonoscopia, endoscopia, entre outros. Em um destes exames foram constatados divertículos, que foram retirados, porém de nada adiantaram para melhora do quadro.

Sendo assim o tratamento se iniciou pelo Alan, que na sua primeira terapia, ao realizar sua avaliação obteve algumas informações com o paciente sobre o início do quadro, o qual teria acontecido após uma discussão de seu filho com um dos vizinhos de seu prédio. A percepção do paciente diante de tal situação foi determinante para o desenvolvimento dos transtornos do sistema digestivo, mais especificamente relacionado ao intestino.  O teste de palpação auscultatória  do terapeuta o levou a encontrar restrições intestinais. A conduta foi manipulação de alças intestinais que estavam aderidas, esfíncter ileocecal e manipulações de restrições em OAA e articulação sacro ilíaca.  Após a primeira sessão Alan encaminhou a mim o paciente. Quando chegou a minha sala o paciente mal andava, pediu-se para sentar na mesa de exames, pois a mesma era mais alta que a cadeira e ele justificou-se dizendo que não teria forças para levantar da mesma. Feito isso perguntei a ele como poderia ajudá-lo e a resposta dele foi imediata: “Não aguento mais sentir dor Dr., não tenho forças nas pernas e tampouco vontade de comer.”

Basicamente o que precisava fazer era primeiramente fazê-lo comer, este era o mais problema, pois a falta de força vinha das alterações que o próprio corpo buscou para ter energia. O corpo tem seus princípios energéticos, primeiro irá buscar os carboidratos para produzir energia, depois os lipídios e as reservas de gordura do corpo, quando estes recursos acabam, só lhe resta uma opção, retirar massa dos músculos e pela gliconeogênese produzir energia. Portanto era impossível fazê-lo voltar a ter forças porque os músculos haviam simplesmente desaparecido. Em um teste de força muscular o paciente não conseguiu nem mesmo realizar uma extensão livre do joelho, apenas com o peso da própria perna, me abismava o fato de ele ainda estar conseguindo andar.

Passei a ele simples recomendações. A primeira era comer o que gostasse, pois para quem já não tem apetite ter que comer alimentos que não o apetecem é extremamente desmotivante. A segunda foi um probiótico, pois o paciente apresentava transtornos intestinais e neste tempo de procura de diagnóstico tomou vários medicamentos nocivos às paredes intestinais. Pedi a ele que tomasse também glutamina, um suplemento de aminoácido comumente utilizado por praticantes de esportes por ter propriedades musculares, mas que também tem uma interessante propriedade, ajuda a revitalizar a parede intestinal. Por fim dei a ele uma lista de alimentos de alta carga glicêmica, pois tinha que prover energia ao corpo e o paciente vinha perdendo cerca de 2 a 3 kgs por mês, pedi a ele que utilizasse pelo menos 2 alimentos daquela lista por dia.

Em 15 dias o paciente voltou, perguntei a ele como estava, disse que estava melhor, ainda com dores, mas a intensidade havia diminuído. Pedi a ele que subisse na balança para saber se ele havia ganho peso, o que aconteceu, houve ganho de 1kg em 15 dias. O paciente se surpreendeu e me disse que estava com medo de subir na balança, pois achava que havia perdido mais peso. Pedi a ele para manter a conduta e voltar em 15 dias. As sessões de osteopatia continuavam com o Alan, que me disse ter havido melhora significativa, principalmente o ânimo.

Em uma terceira sessão o paciente já chegou com semblante melhor, ainda apoiado pela esposa para andar, sentou-se na mesa de exames novamente e me disse que estava melhorando, enjoado de algumas coisas que tinha que comer, mas estava evoluindo, havia ganho mais 500gr. O simples fato do paciente não estar perdendo peso já era uma grande conquista. Comecei então a aumentar os alimentos com proteína, para que o corpo tivesse capacidade para reconstrução muscular. As idas ao banheiro que antes aconteciam uma vez a cada 2 ou 3 dias, agora eram 1 a 2 vezes ao dia e o mais importante a dor já era muito menor.

Na quarta sessão o paciente já chegou andando sem apoio da esposa, ainda com dificuldade para andar, nada comparada às primeiras sessões. As dores abdominais já eram mínimas e esta sessão teve grande importância frente à relação psíquica do paciente. Enquanto eu perguntava como ele estava, se estava comendo bem ele me interrompeu por um instante e me disse: “Dr. Posso lhe falar uma coisa ?”prontamente disse a ele que sim e ele respondeu:

“Estou mais tranquilo agora, voltei a ganhar peso e me sinto bem melhor. Estava muito preocupado, pois tenho vários parentes que moram longe, e nestes últimos meses vários deles vieram me ver, eu realmente achei que ia morrer, que não ia dar mais para mim”.  Isto para nós terapeutas é muito importante, pois neste momento se afasta em muito a possibilidade do paciente vir a desenvolver a síndrome do canal coletor, algo que em nosso tratamento é com certeza de grande dificuldade. O paciente terminou a frase sorrindo e neste momento eu sorri junto, logicamente não iria falar, mas da forma como o recebi na primeira sessão, também achei que era um caso onde perderia o paciente. Pedi a ele que subisse na balança, o peso ganho no fim de 2 meses já era 2,5kgs.

Estávamos no fim do ano de 2014 quando o paciente veio para sua 5a sessão, chegou caminhando sozinho, sentou-se na mesa de exames como de costume, apresentava um ótimo semblante e me disse: “tem como você me pesar ? acho que ganhei mais alguns quilos.” O que antes era temor agora era motivação.  O ganho de peso já era de 4kgs.

Disse a ele para voltar no ano seguinte e assim foi feito.

Em fevereiro o paciente retornou, já pesando 80kg, 7kg a mais do que quando iniciou as terapias,  reclamou de dores nas pernas, especialmente nas canelas. Disse a ele que por um lado o peso ganho era ótimo, porém por outro os músculos que ele havia perdido faziam falta, sendo assim precisava que ele fizesse exercícios, caminhadas.  Ele disse que tinha medo, que não conseguiria porque as pernas ainda estavam fracas, dei então exercícios para ele fazer dentro de casa e o pedi para começar devagar as caminhadas, andando no bairro onde mora. Ao fim da sessão ele me relatou que estava suando muito durante a noite, indo ao banheiro várias vezes. Que seu exame de próstata estava com índices elevados e que a próstata estava edemaciada. Pedi a ele que retornasse ao Alan, que havia iniciado o tratamento com a osteopatia informativa na primeira sessão, para que ele entendesse o real motivo da próstata estar aumentada. Nesta época já havia tirado totalmente os suplementos do paciente, ele conseguia se manter saudável apenas com a sua dieta de forma equilibrada. Solicitei a ele que voltasse em 45 dias.

Após os 45 dias ele estava de volta, porém me veio novamente com dores nas pernas e me relatou que a sensação de desânimo era grande, que não tinha vontade de se exercitar. Neste momento vi que na verdade o medo e a incapacidade era o que o deixava temeroso. Uma semana antes havia tido uma reunião com os professores do grupo da informativa e me lembrei do Zezé dizendo sobre um exemplo de incapacidade funcional de uma paciente com dor em um movimento do ombro, que o simples fato de aplicar uma manobra e fazê-la realizar o movimento poderia ser o necessário para acabar com a memória gravada a nível psíquico, que a remetia à incapacidade.

Sendo assim falei com a esposa do paciente, marquei uma consulta no lago da cidade em que atendo e pedi a ela que não dissesse nada a ele que dissesse que ia leva-lo a sessão mas que antes teria de passar em um lugar. Encontrei com ele e a esposa no lago, abri a porta do carro e a surpresa do paciente foi imediata, pedi a ele que saísse do carro pois iríamos caminhar. Ele me atendeu com temor, disse que talvez não conseguisse andar por mais de 200 metros. Andamos por 1400 metros. Ao fim deste percurso me sentei ao lado dele em um banco e disse: “viu como você consegue  ? Qual é sua próxima meta ?” e ele me respondeu: “Quero dirigir”. Estabeleci que em 1 mês ele teria que andar e se condicionar para realizarmos esta nova meta.

Por fim em uma sessão 15 dias após este encontro no lago, passei a ele alguns suplementos que ajudariam com relação à próstata. É importante o paciente se sentir amparado, sentir que existe algo para ajudá-lo no tratamento.

Na sua última sessão há cerca de 45 dias atrás o paciente me disse que já acorda apenas 1 ou 2 vezes durante a noite para ir ao banheiro, em algumas noites não sentiu vontade de ir ao banheiro. Caminha sozinho e sem ajuda, ainda há déficit muscular. As dores intestinais cessaram-se.

Neste tratamento pudemos ver a efetividade da osteopatia quando usada integralmente e as suas possibilidades. O paciente continua suas visitas periódicas ao meu consultório, simplesmente para controle alimentar e ainda estamos trabalhando na meta de voltar a dirigir. Mas o mais importante foi alcançado ao meu ver. O paciente já se sente vivo novamente, fora de perigo, amparado. Devemos entender que nossa função é exercer os testes diagnósticos, não esquecer da fisiologia e saber entender a fisiologia “especial”, pois Still já dizia que o corpo tem uma tendência de auto-cura e algumas vezes para alcançar este direcionamento à auto cura a fisiologia “especial” entrará em ação. Nos cabe a obrigação de ter ferramentas ou de direcionar o paciente a quem as tenha para exercermos com qualidade nosso ofício.